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Cartas para Bárbara: XX

você já deve ter notado que sou dada a sentimentos, eu sou mesmo uma romântica incurável. mas as pessoas esquecem que, na maioria das vezes, românticos são boêmios.
e estes meus olhos de boemia me permitem ver mais do que longos romances, repletos de nuances, eles me permitem vislumbrar histórias menos densas, contudo não menos intensas.
o que quero dizer, Bárbara, é que posso ser prática também.
se há muito peso em ser amor, podemos deixar mais leve.
não precisa ser se não há espaço para tanto, mas também não precisa deixar de ser e se extinguir. podemos dar outro nome.
paixão, desejo, ternura, carinho, vontade.
eu posso te amar até o corpo, teus dedos, teus olhos, tua boca, tua pele.
o toque pode ser o meu limite.
eu posso não passar daí, de quando nossos corpos se fundem.
eu posso calar juras e te dar meus gemidos.
mas, se tu quiser, posso abrir minha alma, ser inteira tua.
te olhar como a única, te amar como a última.

Cartas para Bárbara: XIX

às vezes tu me assusta, Bárbara; deve ser porque nos causa receio o que não entendemos.
você é um enigma pra mim.
você muda de cor, de textura, sem avisar.
sai trocando os móveis de lugar e eu vou tentando me adequar, me encaixar no teu cenário.
você me enlouquece, Bárbara, em todos os sentidos.
você me faz transbordar em sensações.
você me mostra o caminho e me toma a bússola.
às vezes, não consigo te ler.

sobre a próxima dor

ouvi dizer que a próxima dor sempre é a menos doída. pra mim, nunca funcionou assim. a última dor sempre é a mais lacerante. talvez porque eu não tenha me habituado. temo que eu nunca consiga fazê-lo. falam-me que após sucessivas quedas, a gente aprende a cair, que os machucados já nem ardem tanto. balela. já perdi de vista as dores que tive, mas a dor é sempre inédita pra mim. e não é que eu não tenha lembranças das dores passadas, às vezes até choro quando revisito-as, mas a dor do agora é soco no estômago do qual a gente tenta recuperar o ar e parece nunca conseguir, até que passe. essa dor é viva, pungente e parece só ter reticências. às vezes gosto de dizer que estou sempre atenta, que aprendi a não confiar, que me importo menos do que antes. quem dera. eu sou dessas pessoas que sempre se importam, que acreditam, que preferem esperar o melhor. e me falam: "espere o pior. se você receber o tal pior, não se surpreenderá e, caso receba o melhor, será uma boa surpresa". talv…

Cartas para Bárbara: XVIII

baby, hoje eu estou particularmente cansada. hoje o mundo estava diferente, porque meus olhos, hoje, não são os mesmos de sempre.
hoje pensei em você com saudade, mas não era só ela.
hoje estava tudo misturado, as imagens turvas na minha cabeça.
hoje eu estava esgotada, de tudo, de todos, do mundo, de mim. mas não foi um dia ruim, sabe? foi um dia bom, na verdade. um dia em que eu passei pelo mundo, meio dormente, meio estática, enquanto ele acontecia, vibrava, corria.
uns diriam que há um quê de melancolia nesse dia, mas há mesmo é um tanto de calma.
um tanto de saber do que não alcanço, de assumir o que não sou e não sei.
Bárbara, eu não te alcanço e se eu pensar bem, eu não te sei.
hoje o dia foi de constatar tudo o que não possuo, foi de perceber que eu gosto muito de possuir, mas nada é meu. nada.
foi um dia de olhar pra cima e dizer a Ele que eu me reconheço pequena.
foi realmente um dia doce, apesar de todo peso.
hoje, inclusive, repensei estas cartas, se elas fazem mesmo algum sentido, …

Cartas para Bárbara: XVII

Bárbara, a tua liberdade me enche os pulmões, mas me causa medo.
você está sempre disposta a ir, sem garantias.
você se joga em lugares e pessoas, vive tudo.
essa tua sede de viver, corpo e alma, me deixa extasiada, me faz reavaliar conceitos, mas, essa mesma sede, me deixa desnorteada, me faz pensar sobre esse tanto que te quero, no quanto estou aqui e você, no mundo.
eu tenho me limitado em cartas curtas enquanto tenho tanto a dizer.
acho que digo aos poucos pra controlar essa avalanche dentro de mim.
eu tenho me imposto barreiras, Bárbara, enquanto você, você não tem limites.

Cartas para Bárbara: XVI

teus olhos são os mais lindos que já vi, Bárbara.
e se os olhos são as janelas da alma, os teus só podiam ser magníficos mesmo.
não há dia em que eu não pense neles.
todos os dias imagino como será, parafraseando o poetinha, quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolverem se encontrar.
ai Bárbara, que frio que me dá.