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"eu tenho mais de vinte anos"

eu tenho mais de vinte anos
e algumas crises de não saber
receio que
depois dos quarenta
ainda as terei
talvez até mais

eu tenho colecionado memórias
talvez não tão memoráveis
e daqui a alguns anos
haverão muitas mais
dentre o que vale ser lembrado
e o que forçamo-nos a esquecer
não esquecemos

eu tenho vinte e poucos anos
e o peso dos olhares à minha mocidade
aliado ao deslumbre à tal vivacidade
que se carrega - dizem - nessa idade

talvez depois
com o dobro do que tenho hoje
em anos e vivências
sinta menor o peso da idade
porque mais que entoem
o quanto cada ano
pesa um pouco mais

o que me pesa são os olhares
atentos à ausência de rugas
à melanina que me escurece os cabelos
ao meu corpo quase ereto
à minha juventude
que não se curva

tenho vinte e poucos anos
e não me constrange a mocidade
me constrange a ideia
gélida e distante
de que pouco vivi
de que pouco sei
sobre a vida
esta vida que me enche os olhos
e me aterroriza

sinto que os anos
não nos dizem tudo
mas a sensibilidade desvenda
não há véus
que lhe consigam encobrir os…

Cartas para Bárbara: XXI

eu pensei que não fosse mais te escrever.
passei uns dias enterrando palavras para que você não pudesse alcançar o que está no mais profundo em mim, o que se esconde no subjetivo e só se desvela quando corre nestas linhas.
pensei em te escrever só em maiúsculas, pra você entender a força que há em tudo que sinto e, claro, para me contrapor ao que você é. mas desisti, porque é assim que sei te escrever, porque é dentro da delicadeza que cabem todas as sensações que você provoca em mim, mesmo a raiva.
eu costumo liquidar pessoas deixando de escrever sobre elas ou para elas. é a forma que encontrei de tirá-las de mim. então eu escrevo até exaurir o que existe, até que tudo tenha sido dito, até que finalmente eu exorcize tudo e possa deixá-las ir. então, se esta carta nos aproxima, ao mesmo tempo ela anuncia um fim, próximo ou distante. eu aprendi, a duras penas, que tudo finda, Bárbara. mesmo que seja para renascer em outro corpo, em outro molde, mesmo que seja para ressurgir com outro refl…

poeminha II

pra amar
é preciso disposição
nunca imposição



Débora Andrade
24/07/2017

poeminha

a vida é
se doar
doar
doar
até doer


Débora Andrade 30/11/2016

Cartas para Bárbara: XX

você já deve ter notado que sou dada a sentimentos, eu sou mesmo uma romântica incurável. mas as pessoas esquecem que, na maioria das vezes, românticos são boêmios.
e estes meus olhos de boemia me permitem ver mais do que longos romances, repletos de nuances, eles me permitem vislumbrar histórias menos densas, contudo não menos intensas.
o que quero dizer, Bárbara, é que posso ser prática também.
se há muito peso em ser amor, podemos deixar mais leve.
não precisa ser se não há espaço para tanto, mas também não precisa deixar de ser e se extinguir. podemos dar outro nome.
paixão, desejo, ternura, carinho, vontade.
eu posso te amar até o corpo, teus dedos, teus olhos, tua boca, tua pele.
o toque pode ser o meu limite.
eu posso não passar daí, de quando nossos corpos se fundem.
eu posso calar juras e te dar meus gemidos.
mas, se tu quiser, posso abrir minha alma, ser inteira tua.
te olhar como a única, te amar como a última.

Cartas para Bárbara: XIX

às vezes tu me assusta, Bárbara; deve ser porque nos causa receio o que não entendemos.
você é um enigma pra mim.
você muda de cor, de textura, sem avisar.
sai trocando os móveis de lugar e eu vou tentando me adequar, me encaixar no teu cenário.
você me enlouquece, Bárbara, em todos os sentidos.
você me faz transbordar em sensações.
você me mostra o caminho e me toma a bússola.
às vezes, não consigo te ler.

sobre a próxima dor

ouvi dizer que a próxima dor sempre é a menos doída. pra mim, nunca funcionou assim. a última dor sempre é a mais lacerante. talvez porque eu não tenha me habituado. temo que eu nunca consiga fazê-lo. falam-me que após sucessivas quedas, a gente aprende a cair, que os machucados já nem ardem tanto. balela. já perdi de vista as dores que tive, mas a dor é sempre inédita pra mim. e não é que eu não tenha lembranças das dores passadas, às vezes até choro quando revisito-as, mas a dor do agora é soco no estômago do qual a gente tenta recuperar o ar e parece nunca conseguir, até que passe. essa dor é viva, pungente e parece só ter reticências. às vezes gosto de dizer que estou sempre atenta, que aprendi a não confiar, que me importo menos do que antes. quem dera. eu sou dessas pessoas que sempre se importam, que acreditam, que preferem esperar o melhor. e me falam: "espere o pior. se você receber o tal pior, não se surpreenderá e, caso receba o melhor, será uma boa surpresa". talv…