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Cartas para Bárbara: XXI

eu pensei que não fosse mais te escrever.
passei uns dias enterrando palavras para que você não pudesse alcançar o que está no mais profundo em mim, o que se esconde no subjetivo e só se desvela quando corre nestas linhas.
pensei em te escrever só em maiúsculas, pra você entender a força que há em tudo que sinto e, claro, para me contrapor ao que você é. mas desisti, porque é assim que sei te escrever, porque é dentro da delicadeza que cabem todas as sensações que você provoca em mim, mesmo a raiva.
eu costumo liquidar pessoas deixando de escrever sobre elas ou para elas. é a forma que encontrei de tirá-las de mim. então eu escrevo até exaurir o que existe, até que tudo tenha sido dito, até que finalmente eu exorcize tudo e possa deixá-las ir. então, se esta carta nos aproxima, ao mesmo tempo ela anuncia um fim, próximo ou distante. eu aprendi, a duras penas, que tudo finda, Bárbara. mesmo que seja para renascer em outro corpo, em outro molde, mesmo que seja para ressurgir com outro refl…

poeminha II

pra amar
é preciso disposição
nunca imposição



Débora Andrade
24/07/2017

poeminha

a vida é
se doar
doar
doar
até doer


Débora Andrade 30/11/2016

Cartas para Bárbara: XX

você já deve ter notado que sou dada a sentimentos, eu sou mesmo uma romântica incurável. mas as pessoas esquecem que, na maioria das vezes, românticos são boêmios.
e estes meus olhos de boemia me permitem ver mais do que longos romances, repletos de nuances, eles me permitem vislumbrar histórias menos densas, contudo não menos intensas.
o que quero dizer, Bárbara, é que posso ser prática também.
se há muito peso em ser amor, podemos deixar mais leve.
não precisa ser se não há espaço para tanto, mas também não precisa deixar de ser e se extinguir. podemos dar outro nome.
paixão, desejo, ternura, carinho, vontade.
eu posso te amar até o corpo, teus dedos, teus olhos, tua boca, tua pele.
o toque pode ser o meu limite.
eu posso não passar daí, de quando nossos corpos se fundem.
eu posso calar juras e te dar meus gemidos.
mas, se tu quiser, posso abrir minha alma, ser inteira tua.
te olhar como a única, te amar como a última.

Cartas para Bárbara: XIX

às vezes tu me assusta, Bárbara; deve ser porque nos causa receio o que não entendemos.
você é um enigma pra mim.
você muda de cor, de textura, sem avisar.
sai trocando os móveis de lugar e eu vou tentando me adequar, me encaixar no teu cenário.
você me enlouquece, Bárbara, em todos os sentidos.
você me faz transbordar em sensações.
você me mostra o caminho e me toma a bússola.
às vezes, não consigo te ler.

sobre a próxima dor

ouvi dizer que a próxima dor sempre é a menos doída. pra mim, nunca funcionou assim. a última dor sempre é a mais lacerante. talvez porque eu não tenha me habituado. temo que eu nunca consiga fazê-lo. falam-me que após sucessivas quedas, a gente aprende a cair, que os machucados já nem ardem tanto. balela. já perdi de vista as dores que tive, mas a dor é sempre inédita pra mim. e não é que eu não tenha lembranças das dores passadas, às vezes até choro quando revisito-as, mas a dor do agora é soco no estômago do qual a gente tenta recuperar o ar e parece nunca conseguir, até que passe. essa dor é viva, pungente e parece só ter reticências. às vezes gosto de dizer que estou sempre atenta, que aprendi a não confiar, que me importo menos do que antes. quem dera. eu sou dessas pessoas que sempre se importam, que acreditam, que preferem esperar o melhor. e me falam: "espere o pior. se você receber o tal pior, não se surpreenderá e, caso receba o melhor, será uma boa surpresa". talv…

Cartas para Bárbara: XVIII

baby, hoje eu estou particularmente cansada. hoje o mundo estava diferente, porque meus olhos, hoje, não são os mesmos de sempre.
hoje pensei em você com saudade, mas não era só ela.
hoje estava tudo misturado, as imagens turvas na minha cabeça.
hoje eu estava esgotada, de tudo, de todos, do mundo, de mim. mas não foi um dia ruim, sabe? foi um dia bom, na verdade. um dia em que eu passei pelo mundo, meio dormente, meio estática, enquanto ele acontecia, vibrava, corria.
uns diriam que há um quê de melancolia nesse dia, mas há mesmo é um tanto de calma.
um tanto de saber do que não alcanço, de assumir o que não sou e não sei.
Bárbara, eu não te alcanço e se eu pensar bem, eu não te sei.
hoje o dia foi de constatar tudo o que não possuo, foi de perceber que eu gosto muito de possuir, mas nada é meu. nada.
foi um dia de olhar pra cima e dizer a Ele que eu me reconheço pequena.
foi realmente um dia doce, apesar de todo peso.
hoje, inclusive, repensei estas cartas, se elas fazem mesmo algum sentido, …